Um tecido de extrema leveza e eleg�ncia conquista homens e mulheres do Imp�rio Romano no s�culo I � C. O misterioso tecido, vindo do long�nquo Oriente, chegava at� os pal�cios romanos depois de percorrer milhares e milhares de quil�metros no lombo dos camelos e burros pela chamada ROTA DA SEDA.
Levas de comerciantes e viajantes, agrupados em caravanas, atravessavam longas dist�ncias passando por vastas estepes, perigosos desertos, enfrentando os desafios das montanhas e ataques de pilhagens para que o produto chegasse s�o e salvo at� os Cais de Veneza.
Desde ent�o, a seda, s�mbolo de sofistica��o e riqueza, era o primeiro produto de troca entre a China e o Ocidente.

O Quirguist�o, um pa�s montanhoso de rara beleza, ficava na rota das caravanas e ainda hoje, guarda em seus dom�nios os segredos dos conquistadores, os vest�gios das antigas caravanas da seda, as marcas da cultura mongol e as cicatrizes da invas�o russa (de 1866 a 1991).
O prefixo �QUIRGUI� vem do turco antigo que significa quarenta tribos e o sufixo �ST�O� significa terra, portanto, QUIRGUIST�O era a chamada terra das quarenta tribos.
Na rota da seda

Assim que desembarquei no aeroporto de Bishkek, capital do Quirguist�o, Sergei, um jovem Kirgyz de origem Russa, j� me esperava agitando a placa de identifica��o. Sergei seria o meu guia durante os pr�ximos 12 dias no pa�s.
Acomodada numa potente Nissan 4X4, parti para o meu primeiro dia de aventura, deixando para tr�s as largas avenidas e a austera arquitetura russa que domina a cidade edificada em despojado concreto cinza.
Aos poucos, a paisagem �spera ia dando caminho � serenidade buc�lica, por onde transpira a natureza n�made do povo Kyrgys.
O Quirguist�o � predominantemente agr�cola.O povo Kyrgyz, de tradi��o n�made, sobrevive da agricultura e de atividades pastoris. Os principais produtos agr�colas s�o trigo, batata, beterraba, algod�o, tabaco e frutos.
BUZKASHI �TRADICIONAL JOGO H�PICO DA �POCA DE JENGIS KHAN (s�culo 13) ONDE A BOLA � UM CABRITO SEM CABE�A

A primeira parada foi para assistir ao BUZKASHI, um jogo t�o tradicional para o povo Kyrgyz quanto o futebol para os brasileiros, a diferen�a � que o Buzkashi remonta ao s�culo 13, quando ent�o, o grande conquistador mongol Jengis Khan j� se divertia assistindo �s competi��es.
No Buzkashi, o corpo de um cabrito morto, e sem cabe�a, � colocado no centro de um c�rculo. Os competidores ficam a uns 200 metros, montados em seus cavalos enlouquecidos para a largada. Dado o sinal, os cavaleiros correm freneticamente em dire��o ao c�rculo.

O primeiro a agarrar o bicho (o que n�o � nada f�cil, pois pesa cerca de 70 quilos) deve dar uma volta no campo, previamente delimitado, e devolv�-lo de onde o recolheu. Durante o percurso, os outros competidores tentam arrancar a carca�a do cavaleiro que a pegou primeiro. Vence o jogo quem devolver o cabrito dentro do c�rculo, depois de contornar todo o campo.

Na �poca do conquistador Jengis Khan, o corpo em jogo era o de um inimigo sem a cabe�a, ao inv�s de um cabrito.
�QUEM N�O TEM C�O... CA�A COM �GUIA� Os Kyrgys das montanhas ca�am com a ajuda da �guia Dourada
No deslumbrante vale Grigorevsk, entre as montanhas nevadas de Tien Shan, as fam�lias n�mades passam de gera��o para gera��o a arte da tradicional ca�a com a �guia.
Sagynbai, o domador de �guias, nos recebeu com um sorriso dourado (quase todos colocam ouro nos dentes) e com a sua �guia empoleirada sobre o bra�o.Trajando a t�pica vestimenta verde, a CHAPAN e encimado pelo KAPLAK, tradicional chap�u Kyrgy de feltro branco, Sagynbai escalou a encosta da montanha com sua pesada �guia no bra�o. Assim que retirou a venda dos olhos do predador, a astuta �guia voou como uma flecha sobre um coelho selvagem que ruminava entre os arbustos no vale, estrangulando-o instantaneamente com a for�a de suas poderosas presas. O perspicaz aquil�neo permaneceu sobre o pobre coelhinho, emitindo guinchos sibilantes, at� que Sagynbai viesse recolh�-lo.
Uma �guia adulta � capaz de ca�ar, al�m de coelhos, raposas e at� lobos.

KARAKOL, UM O�SIS URBANO (foto 020 � grande)
Seguimos a rota que cruza os Montes de Atalau, at� atingir o segundo maior lago alpino da Terra, O ISSUK KUL LAKE, onde a min�scula cidade de KARAKOL surge como um o�sis urbano. Suas casinhas em estilo colonial russo, sua famosa catedral de madeira feita sem nenhum prego, suas ruas arborizadas com as neves da cordilheira do Tien Shan emoldurando a paisagem, oferecem uma vis�o majestosa ao visitante .
MONTANHAS CELESTIAIS
Penetrando fundo nas montanhas de TIEN SHAN, que significa Montanhas Celestiais, num cen�rio de indescrit�vel beleza, fica o VALE DAS FLORES, onde forma��es rochosas com nomes sugestivos, como �a Rocha dos sete touros�, �Cora��o quebrado�, agregam lendas folcl�ricas e rom�nticas ao Vale.
UM N�MADE PERGUNTOU AO GUIA, A HORA, O DIA, O M�S E... O ANO EM QUE EST�VAMOS

Conforme �amos adentrando pela estreita garganta do Vale, os resqu�cios de civiliza��o iam ficando cada vez mais distantes. J� n�o havia mais estrada. A partir dali, a potente Nissan 4X4 escalava, quase na vertical, os rochedos que surgiam em nosso caminho.

Na paisagem verdejante, salpicada de flores roxas e amarelas, destacam-se as tendas ou YURTAS, como gigantes cogumelos, onde os n�mades vivem com a fam�lia, em total isolamento, enquanto pastoreiam o rebanho de ovelhas e o gado.

O n�made BEISHEKEEV TOKTOBAI, vestido numa cal�a de couro e num su�ter de pele de carneiro,veio ao nosso encontro com um velho despertador nas m�os. Seus l�bios ressequidos contrastavam com os ofuscantes dentes de ouro. Colocando o despertador no ouvido, para certificar-se de que n�o estava funcionando, perguntou as horas para o guia Sergei. Em seguida, perguntou o dia, depois o m�s e o ano em est�vamos. Fiquei me perguntando quanto tempo j� durava o seu isolamento.
Toktobai nos convidou para um ch� em sua YURTA. A Yurta, ou tenda, sistema de acampamento utilizado por Jengis Khan desde o s�culo 13, � uma estrutura desmont�vel de madeira, forrada com pele e l� de carneiro, que protege tanto do frio quanto do calor. No interior, oferece o aconchego de um �lar doce lar�. O fog�o � lenha fumegava atrav�s da chamin� que sa�a pelo teto. De um lado da Yurta, ficam os pertences do chefe da fam�lia, do outro, as coisas da esposa e dos filhos. As peles, empilhadas num canto da Yurta, denunciam o rigor do inverno. Um tapete, com a imagem de MECA, pendurado na dire��o oeste, revelava a devo��o isl�mica da fam�lia de n�mades.(O islamismo foi introduzido nesta regi�o no s�culo 9).
LEITE DE CAVALO?

O anfitri�o fez sinal para que sent�ssemos sobre os tapetes que forravam o r�stico ch�o. Em seguida, passou a rasgar um enorme p�o e dividiu-o entre os presentes, enquanto sua esposa nos preparava ch� num Samovar e kifir nas cuias, uma esp�cie de coalhada feita com leite fermentado de cavalo, ou melhor, de �gua, bebida t�pica da regi�o.
Fui invadida por uma profunda paz carregada de admira��o por aquela gente t�o simples e t�o brava , t�o forte e t�o fr�gil, t�o rude e t�o hospitaleira cuja sobreviv�ncia depende do que a natureza lhes oferece. Compadeci-me de ver, quebrado, o �nico indicador do tempo, o velho e descascado despertador. Retirei, ent�o, o rel�gio do meu pulso e ofereci �quela mulher que me tratava como uma rainha em seu pobre castelo, sem nunca ter me visto antes.
O exemplo de desprendimento e simplicidade de vida daquela fam�lia n�made me fez repensar nos valores atribu�dos pela sociedade Ocidental. Senti-me gratificada por saber que ainda existem povos cujos costumes permanecem intrinsecamente ligados a um passado distante, onde jovens continuam bebendo leite fermentado de �gua, ao inv�s de coca-cola. |